Gastronomia por Roberta Sudbrack
17/12/2007 ..
Ser carioca...
Parece que dezembro ouviu as minhas lamúrias. A chuva se foi, o que melhora bem o humor do carioca. Parece que sai um peso das costas de cada carioca que anda pelas ruas dessa cidade única. Com chuva, fica todo mundo curvado, tenso, contido. Um jeito nada carioca de ser!
Carioca mesmo, como sempre disse a Adriana Calcanhotto, que, aliás, recebeu muito merecidamente outro dia, o título de cidadã carioca: “São bacanas...e não gostam de dias nublados”.
Não gostam mesmo! Carioca que se preze fecha o tempo ao sentir o primeiro pingo de chuva no rosto! Até eu, gaúcha, bem carioca que sou, ando sentindo falta do sol quando ele resolve se esconder. Quanto a ser bacana, pura verdade também, o carioca abusa do direito de ser bacana!
Na verdade, todo mundo quer ser carioca! E o Rio de Janeiro tem essa capacidade, de acolher gente seja lá de onde for e batizar de carioca! Poucas cidades no mundo têm essa sedução. Não há quem resista! Depois de dois, três anos morando por aqui, você simplesmente começa a acreditar que é carioca. E quem vai te convencer do contrário?
Todo mundo quer ser carioca! Ser carioca é andar de sandália havaiana pela rua, como se estivesse na sala de casa. É conhecer todo mundo no bairro. Ter um botequim do coração pode ser mais importante do que ter um time do coração para o carioca. Mas se o time não for o Flamengo, ainda assim há que respeitar o fato do Flamengo ser tão carioca quanto o carioca!
Ser carioca é gostar de comida simples. Milho verde na praia no cair da tarde. Biscoito globo com Coca-Cola de casco! Chicabon! Pão na chapa! Camarão com chuchu! Sanduíche de pernil! Chope na pressão e pressão na veia, seja lá no que isso vai dar!
Ser carioca é viver de bem com a vida! Especialmente em dias ensolarados!
Até!
18/12/2007 ..
Ficar em casa...
Não que eu entenda muito desse assunto, mas, adoro! Quando tenho um tempinho é a minha prioridade! Tem coisa melhor do que chegar em casa, se livrar da roupa suja e vestir short, chinelo e camiseta? Eu particularmente acredito que não.
Estar em casa é um exercício de entrega. Se relacionar com as coisas que temos em casa, nosso sofá, nossa chaleira, nossa cadeira, nosso cachorro! Coisas que a gente vai juntando, tralhas que a vida vai colocando na nossa vida. Bibelôs, recordações de viagens, pedacinhos de nós mesmos grudados em cada cantinho.
Um dia você pode resolver mexer naquele armário que há muito tempo não mexia. Pronto! Passaporte garantido para uma viagem, seja lá para onde for! Ficar em casa é sempre uma viagem. Com tudo o que as viagens têm direito, inclusive a parte gastronômica.
Tomar café no final da tarde, coado por você mesmo. O que pode ser mais romântico do que isso? Um bolo assado por você mesmo! Já percebeu o gestual do seu corpo quando retira o bolo da forma? É uma sensação única! De satisfação, vitória, alegria e aconchego.
Pronto, está aí a palavra que move todo esse sentimento de ficar em casa: aconchego! Abajur, havaianas, chaleira, bolo, café, arroz branco, bagunça, barulho de porta de armário, tudo isso me lembra aconchego. Agora, camiseta velha, em minha opinião é a própria definição de aconchego. E onde mais se pode usar camiseta velha como traje tênue de ville?
Ficar em casa é tudo de bom!
Até!
19/12/2007 ..
Dias de festa...
Começando o aquecimento para a maratona de natal, aí vamos nós! Como já deixei escapar, essa não é a minha época preferida do ano. Mas, como cozinheira de alma que sou, acabo me empolgando com a parte que me toca, a cozinha!
Apesar de ser uma época para lá de confusa, no quesito produtos é absolutamente imbatível. A variedade de produtos é sensacional e as possibilidades, vão muito, mas muito além, do já manjado - mas originalíssimo, apesar de tudo! - peru de natal! Na minha família, mais gostoso do que o próprio peru, é o sarrabulho! Uma farofinha molhada preparada com os miúdos do peru, que ninguém, ninguém mesmo, prepara melhor do que a Vó Iracema.
Mas diante de tantas possibilidades de sabores, optei por um toque mais ousado no presente que escolhi para vocês. Receitas de família são de família! Ou seja, ninguém mete a colher sob pena de levar uma vassourada na cabeça. Minha avó é capaz de atos passionais como esses em dias de festa! Aí de quem resolver comer alguma coisa que ela está fritando, tipo bolinhos de chuva, rabanadas, pastéis ou seja lá mais o quê! Só pode comer depois que frita tudo! Outro dia perguntei para ela o porquê dessa regra, já que eu e meu saudoso avô já levamos muita vassourada na cabeça. Ela me respondeu: “Ora, porque senão eu não tenho a sensação de que o trabalho foi bem feito!”. Ah, bom!
Então a partir de hoje começo a dar as dicas para que vocês façam um trabalho bem feito nesse natal! Comecemos pela entrada, que apresenta uma das minhas mais novas e deliciosas descobertas: os figos de Valinhos. Amanhã, falo maio sobre isso, prometo!
Agora, por favor, professores e confrades mais ácidos, caso eu já tenha dado alguma dessas receitas, não façam disso um vendaval! A idéia é diversão e paz na cozinha de natal!
Salada de baby rúcula, “figos de Valinhos” e camembert crocante
Por Roberta Sudbrack
Para 8 pessoas
Ingredientes
450 g de camembert (do tipo mais firme, mais curado)
50g de farinha de trigo
6 colheres de sopa de manteiga sem sal
6 colheres de sopa de azeite de oliva extra-virgem
2 colheres (sopa) de aceto balsâmico
2 maços baby de rúcula
8 “figos de Valinhos” lavados e cortados em quatro
sal
pimenta-do-reino moída na hora
Modo de preparo
Corte o camembert em 16 fatias de 2cm de espessura. Passe ligeiramente na farinha de trigo e retire o excesso. Em uma frigideira antiaderente em fogo bem baixo adicione 2 colheres de sopa de manteiga e 2 de azeite e frite metade do queijo até ficar com uma crosta dourada e crocante. Retire e mantenha o queijo aquecido. Retire o excesso de gordura da frigideira, acrescente o restante da manteiga e do azeite e frite o queijo restante. Prepare um vinagrete com 6 colheres de sopa do azeite de oliva e 2 de aceto balsâmico, misture bem para emulsionar e tempere com sal e pimenta do reino moída na hora. Disponha a rúcula nos pratos com os figos em fatias. Coloque o camembert quente por cima, regue generosamente com o vinagrete balsâmico e sirva logo.
20/12/2007 ..
Figo roxo de Valinhos...
Descobri essa pérola outro dia através de outra pérola: o meu vendedor de frutas preferido, que fica no sinal de trânsito localizado no final do canal Leblon. Eu já cansei de dizer aqui que as melhores frutas do Rio se encontram nos sinais de trânsito! Mas tem um porquê!
A França tem especialistas para tudo. Especialista em queijos, flor de sal, chocolates, frangos e tantas outras coisas. Têm também festas para todas essas outras tantas coisas! Nós também temos esses especialistas, mas os nossos estão pelos sinais de trânsito, muitas vezes são até confundidos com bandidos... Estão também pelas feiras, pelos entrepostos, pelas ruas desse país.
A verdade é que não damos a devida importância ao valor que o conhecimento desses profissionais tem na nossa cultura. Mas os franceses dão! Se nos inspiramos tanto na corte francesa desde o tempo em que a Família Real Portuguesa chegou por aqui, porque não prestar também a devida homenagem a esses Mestres! Certamente, na França, esse seria o título do meu vendedor de frutas de sinal, que tem a capacidade de conhecer as melhores frutas e reconhecê-las por regiões desse país. Saber das safras, da melhor época para consumir e da melhor maneira de conservar. Descobrir pérolas como essas provenientes de uma cidade que se orgulha em produzir, talvez, um dos melhores exemplares dessa fruta que já se teve notícia!
Isso é cultura! Isso é patrimônio cultural da nossa existência! É orgulho nacional! E tem mais, em Valinhos como na França tem também a festa do figo roxo, com desfiles de cavaleiros e tudo! Vejam só: http://www.festadofigo.com.br/2008/ Não perde nada para a festa do Poulet de Bresse na França!
Dito isso, segue a receita para um prato principal de um natal diferente. Os figos roxos de Valinhos estão na entrada, que está no post de ontem. Hoje a conversa é com a castanha de caju!
Até!
Codorna em emulsão de castanha de caju e foie gras
Por Roberta Sudbrack
Para 8 pessoas
Ingredientes
8 codornas inteiras
50 g de passas brancas
100 g de castanha de caju natural
250 g de manteiga sem sal
50ml de azeite de oliva extra-virgem
8 escalopes de foie gras fresco de pato
flor de sal
sal
pimenta-do-reino moída na hora
Modo de preparo
Retire o peito das codornas e desosse as coxas.
Hidrate as passas em água morna por 30 minutos.
Pique as castanhas e doure-as ligeiramente na frigideira.
Derreta em fogo médio 200 g da manteiga até adquirir cor e aroma de avelã.
Abaixe o fogo e adicione as passas com 4 colheres de sopa da água e por último as castanhas. Tempere com sal e pimenta do reino moída na hora. Desligue e reserve.
Grelhe o peito e as coxas das codornas em frigideira quente com a manteiga restante e o azeite de oliva até ficarem douradas e crocantes. Tempere com sal e pimenta do reino moída na hora.
Em frigideira quente sem gordura, grelhe os escalopes de foie gras rapidamente. Tempere suavemente com a flor de sal.
Sirva a codorna e o foie gras com a emulsão de castanha de caju.
21/12/2007 ..
Corri, corri, corri...
Para chegar antes do natal e não deixar vocês sem sobremesa! Ainda não sei se vai dar tempo de postar...Estou na expectativa! Mas se vocês estiverem lendo isso agora, é sinal de que Papai Noel existe!!! Especialmente depois do dia que tive hoje!
Essa é uma das minhas sobremesas de natal preferidas, principalmente porque nessa época as cerejas estão soberbas e porque é facílima de fazer! Afinal, quem é que quer ter “mais” trabalho no natal?
Um grande natal para todos e muitas gostosuras e travessuras pela frente!
Clafoutis de cereja ao creme inglês
Por Roberta Sudbrack
Para 8 pessoas
Ingredientes
4 ovos
220g de açúcar de confeiteiro
16 colheres (sopa) de creme de leite fresco
8 colheres (sopa) de leite
2 fava de baunilha
400 g de cerejas frescas sem caroço
Creme inglês:
1 fava de baunilha
500ml de leite
6 gemas
100 g de açúcar
Modo de preparo
Unte um recipiente refratário com manteiga e polvilhe com açúcar. Leve à geladeira por 30 minutos.
Bata os ovos ligeiramente com 200g do açúcar de confeiteiro. Adicione o creme de leite e o leite e misture bem.
Abra a fava de baunilha, raspe bem as sementes e adicione à mistura de creme, leite e ovos.
Disponhas as frutas no refratário e cubra com a mistura. Polvilhe com um pouco de açúcar de confeiteiro.
Leve ao forno préaquecido a 180ºC até ficar dourado. Não deve ficar muito seco.
Creme inglês:
Abra a fava de baunilha e acrescente as sementes e as favas ao leite. Ferva o leite.
Passe as gemas por uma peneira de plástico e bata com o açúcar até obter um creme esbranquiçado.
Acrescente o leite aos poucos às gemas e misture bem.
Cozinhe em banho-maria até adquirir um creme espesso
Sirva o clafoutis com o creme inglês.
Até!
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